segunda-feira, 21 de janeiro de 2008 | 00:59 |
Escrito por Daniel Castelo Branco
Roma, 476 D.C. No dia da cerimônia de coroação do novo imperador Romulus Augustus (Thomas Sangster), um pivete de apenas 12 anos, o general bárbaro Odoacer (Peter Mullan) propõe um acordo com Orestes (Iain Glen), pai do pequeno César. O bárbaro exige uma recompensa por seu apoio ao império, mas Orestes recusa o acordo.
Preocupado com a segurança do filho e com a previsão do xamã Ambrosinus (Ben Kingsley), Orestes coloca o legionário Aurelius (Colin Firth) como guarda pessoal do garoto. Mas naquela mesma noite Odoacer e sua tropa invadem Roma, capturam o pequeno César e matam seus pais.
O órfão é levado para a ilha-fortaleza de Capri. No local garoto encontra a espada mitológica de César (Excalibur?). O guarda-costas do garoto monta um pequeno exército para resgatá-lo. Todos viajam para a Inglaterra em busca de proteção. Lá encontram um inimigo e travam uma batalha.
Não se deixe enganar pela sinopse, A Última Legião (The Last Legion, 2007) é um lixo. Elenco ruim, figurino ruim, fotografia ruim, direção ruim, lutas mal coreografadas. Chega a ser patético. É um filme infantil querendo ser adulto. Tosco, bizarro, idiota. O antipático garoto César é jogado como protagonista de uma história ridícula e enfadonha. Pobre Rei Arthur.
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terça-feira, 15 de janeiro de 2008 | 23:58 |
Escrito por Daniel Castelo Branco
Dirigido por David Cronenberg e escrito por Steve Knight, Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007) é um filme que não quero assistir novamente. Os desprevenidos, assim como eu, são surpreendidos logo de cara com um degolamento à moda alqaediana e o sangrento nascimento de um bebê pré-maturo. Cenas fortes, feitas sob medida para chocar o espectador.
Levar um golpe direto no queixo, logo no início da luta, faz você ficar na defensiva, com atenção máxima até o final. Comigo aconteceu assim, não consegui piscar um só segundo na esperança de saber como aquilo tudo começou e como iria terminar. Todavia, Senhores do Crime é uma história sem começo e sem fim, apenas um pequeno capítulo no meio de uma odisséia russa.
No filme, Anna Ivanovna (Naomi Watts) é uma parteira que trabalha num hospital em Londres. Um dia testemunha a morte de uma jovem de 14 anos, durante um parto realizado na noite de natal. Com o diário da moça em mãos, ela decide procurar a família para dar a notícia do falecimento pessoalmente, o que a faz decobrir segredos sobre a menina.
A busca acaba colocando-a em contato com o misterioso tráfico do sexo, comandado pela organização criminosa russa dos Vory V Zakone. Logo Anna conhece Semyon (Armin Mueller-Stahl), o patriarca da família. Eu não conhecia esse ator, mas o cara merece um prêmio. Seu personagem exala um terror psicológico digno de Hannibal Lecter.
Mas o foco da história é a relação entre Anna e o motorista do velhote, Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen, o Aragorn de "O Senhor dos Anéis"). O personagem, apesar de parecer secundário, representa o papel masculino mais importante no filme. Inclusive, Viggo Mortensen concorreu ao Globo de Ouro por essa atuação. Particularmente achei que faltou um pouco mais de nuances à caracterização.
Senhores do Crime me fez refletir: o cinema está cada dia mais violento, obsceno e explícito? Comparando com a década de 90, os filmes estariam mais apelativos? O fato é que há um abuso no uso de crianças prostituídas, mulheres escravizadas e um preconceito descompassado, quase visceral. Tudo é mostrado sem delongas, com muito mais realismo e ousadia. A chaga foi aberta e a humanidade nunca esteve tão nua.
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008 | 01:10 |
Escrito por Daniel Castelo Branco
Excelente filme: tenso, brutal e didático. Com toda certeza O Gângster (American Gangster, 2007) merece entrar no TOP 5 da corrida ao Oscar 2008. O filme abrilhanta a carreira de Ridley Scott e posiciona-se ao lado de "Gladiador" (2000) e "Blade Runner" (1982) entre os melhores trabalhos do diretor. De quebra O Gângster pode representar uma nova estatueta aos já premiados Denzel Washington e Russel Crowe.
Baseado em fatos reais, o filme se passa no final da década de 60, com o mundo de olho na Guerra do Vietnã. A história mostra a ascensão do rei do tráfico de heroína Frank Lucas (Denzel Washington) até sua queda, comandada pelo incorruptível policial Richie Roberts (Russell Crowe). Richie não só liderou a força tarefa federal que levou o traficante à justiça, como pôs na cadeira três quartos dos policiais do Departamento de Narcóticos de New York.
Mas o que difere O Gângster de outros filmes sobre máfia é que a Frank Lucas não é um traficante qualquer. Negro, cresceu numa Carolina do Norte segregada pelo racismo. Quando criança viu seu primo ser morto por membros da Ku Klux Klan, por simplesmente olhar para uma garota branca. Frank conseguiu chegar a Harlem em New York, mudando o mercado do tráfico ao cortar atravessadores e negociar diretamente com os plantadores de papoula do sudeste asiático.
O mais interessante, e também perturbador, é que toda a heroína vinda do Vietnã era embarcada em aviões do Exército Americano, dentro de caixões que traziam os soldados mortos na guerra. Rapidamente Frank tinha a melhor heroína do mercado, fazendo até um milhão de dólares por dia. Numa jogada de mestre, o cara começou a vender a droga com o dobro de qualidade e pela metade do preço. A "Magia Azul" monopolizou o mercado, batendo de frente com a máfia italiana.
O Gângster é um filme que assusta. Quando assisti "Tropa de Elite" (2007) e vi o poder do tráfico, a logística da droga e a corrupção impregnada na força policial, fiquei com vergonha de vê esse filme rodando no exterior. Mas O Gângster é bem mais pesado, apesar de menos explícito. Um thriller político sensacional para nos fazer debater sobre a força da droga e a forma como ela invade nossos lares e todas as corporações. A conclusão óbvia é que a droga é a maior invenção da humanidade.
Ambientado na New York da década de 1970, foi uma ótima idéia conduzir o filme na batida dos noticiários e eventos históricos que culminaram na batalha vietcongue. Incrível saber que além de fervorosos consumidores, os militares americanos ajudaram no tráfico de drogas. Outro aspecto notável é o contraponto visual entre a viagem de Frank aos campos vietnamitas de fabricação de heroína e o abuso de cenários urbanos apocalípticos que dominam a história.
Baseado no artigo "The Return of Superfly", de Mark Jacobson, e adaptado por Steve Zaillian (ganhador do Oscar em 1993 pelo roteiro de a "Lista de Schindler"), O Gângster é um seara de luxúria e ambição, pondo em cheque o velho "sonho americano." Afinal, a vida não deve ser melhor, mais rica e cheia para todos? Então me deixem fazer sucesso com minha habilidade de ganhar dinheiro com o tráfico. Infelizmente para Frank, o discurso não funcionou. Ele foi preso e condenado. Anos mais tarde, curiosamente a vida se encarregou de unir os personagens. Lucas saiu da cadeia, tornou-se advogado e ajudou a colocar Frank em liberdade. Água benta, por favor.
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sábado, 5 de janeiro de 2008 | 12:59 |
Escrito por Daniel Castelo Branco
Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007) é uma refilmagem do faroeste "Galante e Sanguinário" (1957), baseado em história de Elmore Leonard originalmente publicada na revista Dime Western Magazine, em 1953. Nem sei quanto tempo faz meu último western. Acho que foi "Maverick" (1994) com Mel Gibson e Jodie Foster [se é que esse pode ser levado em conta].
Mas ao contrário dos faroestes que apareceram nos últimos 15 anos, Os Indomáveis volta às origens. Nada de comédia pastelão e heróis engraçadinhos. A conversa aqui é de homem pra homem. No filme, Daniel Evans (Christian Bale) é um fazendeiro que sofre com a estiagem prolongada. O cidadão vive num pequeno rancho com a mulher e dois filhos. Luta para sobreviver meio às dívidas e pressões para ceder suas terras à construção de uma estrada de ferro.
Num dos acasos da vida, Dan cruza o caminho da quadrilha de saqueadores chefiada por ninguém menos que Ben Wade (Russell Crowe), o mais temido pistoleiro do Velho Oeste. Pouco depois Ben Wade é pego de calças curtas e acaba sendo preso. Mas não dá para simplesmente matá-lo, o cara é um mito. Ele precisa ser levado até o tribunal de Yuma, no Colorado. Por 200 dólares Dan se oferece para participar da comitiva que acompanhará o fora-da-lei.
Um a um o grupo vai se esfacelando. Ao chegar no destino, Dan e os sobreviventes são surpreendidos pelo bando de Wade, temporariamente liderado por Charlie Prince (Ben Foster). É o início de uma grande batalha de pistolas e espingardas. Destaque para a interpretação debochada feita por Russell Crowe. O bad boy imprime uma dinâmica inovadora na interpretação do vilão sanguinário. Destaque também para a forte atuação de Christian Bale e, principalmente, Ben Foster, bandido na verdadeira acepção da palavra.
Os Indomáveis é um clássico faroeste: roupas estilosas, saloon, dançarinas de can-can, xerifes, tiroteios sobre cavalos, trem fumaçento, cidadelas de madeira, chapéus que nunca se perdem, chacinas, demonstrações de habilidade no gatilho. Só faltou um duelo final com aquela tradicional contagem dos passos, gravetos voando ao vento e bangue-bangue. A participação dos índios Apaches também é diminuta, apesar de politicamente incorreto, poderiam ter explorado mais esse tema.
As aventuras de Ben Wade provam que é preciso muito mais que balas para se formar um mito. O pistoleiro imoral deixa um legado de honradez, cavalheirismo e conduta ética. A prova máxima do que digo é a forma como Wade ajudou a transformar Dan Evans em herói. Surpreendente. Os Indomáveis, vivo ou morto, ninguém consegue sair do jeito que entrou.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008 | 15:27 |
Escrito por Daniel Castelo Branco
Aos 47 minutos do 2º tempo, a Warner Bros. Pictures comemora um feito histórico. O filme Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007), ficção científica estrelada por Will Smith, bateu o recorde de maior bilheteria de um fim de semana no último mês do ano (US$ 76,5 milhões), que pertencia ao ultrapoderoso "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" (2003). Isso significou também o maior trabalho da carreira do astro de "Homens de Preto" (1997).
Com direção de Francis Lawrence ("Constantine", 2005) e roteiro de Mark Protosevich e Akiva Goldsman, Eu Sou a Lenda é uma adaptação cinematográfica da clássica história de horror publicada em livro homônimo por Richard Matheson. O livro original de 1954 inclusive já foi filmado outras duas vezes com os títulos de "Mortos que Matam" (The Last Man on Earth, 1964) e "A Última Esperança da Terra" (The Omega Man, 1971). A obra de Richard Matheson é considerada por muitos como a mais inteligente e empolgante ficção sobre vampiros desde Drácula.
O romance distópico centra-se em Robert Neville (Will Smith), um brilhante cientista que não pôde conter o terrível Krypton Vírus, criado pelo próprio homem com intuito de achar a cura para o câncer. De alguma forma imune, Neville é agora o último ser humano que sobrevive na cidade de Nova York, e talvez no mundo. Por três anos, o cientista tem enviado mensagens de rádio diariamente, desesperado para encontrar outros sobreviventes que possam estar em algum lugar.
Mas ele não está sozinho. Vítimas mutantes da praga, os infectados (vampiros? zumbis?) espreitam nas sombras observando cada passo de Neville, esperando que cometa um erro fatal. Talvez a única esperança da humanidade, motivado somente por uma missão: achar um meio de reverter os efeitos do vírus usando seu próprio sangue imune. Mas ele sabe que está em desvantagem... e rapidamente ficando sem tempo.
O filme começa numa New York abandonada. Logo pegamos carona no lendário Mustang Shelby Cobra GT 500. O cara persegue uma manada de antípoles em plena Manhattan, dando de cara com uma família de leões. A Warner Bros. disponibilizou os três primeiros minutos do filme na internet (clique aqui). O trabalho da direção de arte é perfeito, deixando a Big Apple de maneira inacreditável. Consta que os produtores precisaram da autorização de 14 agências governamentais para rodar as cenas abertas. O custo estimado para a realização de seis noites de filmagens foi de US$ 5 milhões.
Ao contrário de outros filmes de terror, Eu Sou a Lenda não nos apresenta os infectados logo de cara. O filme trabalha numa espécie de espiral. Com isso, temos uma bela ambientação da situação de Neville, sem pressa. As explicações vêm em formato de flashback, que ajudam a criar um clima de emoção, humanizando o personagem principal. A despedida de Neville da sua família, por exemplo, é comovente. Tudo com muita sutileza, nada explícito. O diretor trabalha o tempo todo com a sugestão de imagens.
Já que temos tempo de sobra, vamos passear por New York. Pela manhã Neville assiste as notícias na TV (gravação, evidentemente), depois visita uma locadora para alugar um DVD (o cidadão fala com os bonecos como se fossem humanos), à tarde joga golfe em cima de um avião da Força Aérea Americana. Tudo acompanhado de Samantha, uma cadela pastor-alemão. A relação entre os dois é bem parecida com a que Tom Hanks desenvolveu com a bola Willson, no filme "Náufrago" (2000).
Falando nisso, o filme trabalha muito bem o lado psicológico da história. Uma das melhores passagens ocorre quando Neville, depois de passar mais de mil dias sozinho, encontra a brasileira Anna (Alice Braga). Imagine você: há três anos sem família, de repente encontra na bandeja uma mulher (tão linda quanto a sua) e um garoto (da idade de sua filha). Fica bem claro ao expectador que Neville sucumbirá. Mas não há tempo. Eles agora estão encurralados. E naquele momento, olhando para a foto da família, diante do ódio e da loucura humana, parte para o sacrifício máximo e torna-se a própria divindade, o Salvador. Eu Sou a Lenda seria um anagrama da história de Cristo?
Isso eu não sei, mas posso garantir que o filme é uma tremenda homenagem a Bob Marley. O reggae real domina a história por completo. Músicas como "Three Little Birds", “I Shot The Sheriff” e "Stir It Up" sonorizam a história e deixam tudo mais colorido. Numa das cenas Neville explica quem é Bob Marley à Anna, que diz não conhecer o mito. Ainda que o filme se passe em 2012, existiria alguém incapaz de saber quem é Bob Marley? Não sei. Talvez seja uma dura crítica do roteirista querendo dizer que a humanidade está esquecendo o legado desse gênio da música.
O cientista conhece Bob Marley, mas não conhece Deus. Quando Anna o chama a fugir de New York em busca de sobreviventes, Neville explode: "Deixa-me te falar sobre o plano do teu Deus. Havia seis bilhões de pessoas na Terra, quando começou a infecção. O vírus K teve uma taxa de 90% de mortes. Isso são 5,4 bilhões pessoas mortas! Esmigalhadas e esvaídas em sangue. Mortas! Restou menos de 1% de imunidade. Os outros 588 milhões tornaram-se seus piores pesadelos. E eles ficaram famintos, mataram e alimentaram-se de todos. Todos! Não existe Deus. Não existe Deus!"
Como você pode ver, Eu Sou a Lenda é um filme denso. Mas nem por isso chato. Longe disso. Além dos vários sustos com o estilo "Counter Strike" de filmar, fique atento aos easter eggs (àquelas referências que passam despercebidas aos olhos menos atentos e acabam se tornando uma espécie de versão subliminar da história). Eu consegui perceber imagens de Bob Marley nas paredes da casa, quadro com a pintura "O Grito" (do norueguês Edvard Munch), banner do hipotético filme "Batman vs. Superman", cartaz com os dizeres "Deus ainda nos ama" e trechos do filme "Shrek" passando na TV.
O final é brilhante. Com tudo prestes a um destino trágico... o barulho cessa. Lentamente a voz de sua pequena filha invade seus pensamentos. É um momento mágico! Na hora lembrei do filme "Matrix" (1999), com Neo descobrindo que tinha surperpoderes. Está provado que grandes se tornaram gênios após esse mergulho cósmico mental. Tudo começa a se encaixar envolto a um silêncio sepulcral: "Eu tenho a cura! Eu tenho a cura! Eu posso salvá-los!" Não há mais tempo. Tudo agora é um grande nada. Minerva. Eu Sou a Lenda é um filme para deitar, pensar, pensar, pensar...
Confira o trailer legendado clicando no botão play da imagem abaixo.
P.S.: A Vertigo anunciou uma revista online com histórias que ajudam a contextualizar o filme (clique aqui).