terça-feira, 22 de dezembro de 2009 às 01:07

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Avatar: buscando na filosofia indígena o pouco que resta da velha Caixa de Pandora

AvatarEm 1882 o francês Jules Joseph Lefebvre pintou "Pandora". A tela em óleo de 96 por 75cm representava a mulher que - de acordo com a mitologia grega - abriu uma caixa oferecida por Zeus, deixando escapar todas as qualidades humanas dadas pelos deuses. Mesmo tendo-a fechado rapidamente, sobrou para os mortais apenas uma virtude: a esperança. A partir de então os homens foram afligidos por todos os males.

E assim como no mito, James Cameron juntou numa pequena caixa 3-D chamada Avatar (Avatar, 2009), todas as qualidades da recente cinematografia fantástica. O filme, por exemplo, tem inovações linguísticas (O Senhor dos Anéis), rebelião da natureza (As Crônicas de Nárnia), integração homem-máquina (Matrix), ineditismo tecnológico (Star Wars) e manipulação neural, temática já explorada em andróides (Substitutos) e presidiários (Gamer).

Avatar Avatar

O visual dos personagens também não foge à regra. Ao que parece, os criadores se inspiraram na série de quadrinhos "Timespirits", publicada entre 1984 e 1986 pela Epic/Marvel. Basta observar com um pouco mais de carinho para notar que Avatar tem inclusive muitos elementos dos filmes de faroeste. Lá estão os índios armados com arco e flecha, montando cavalos selvagens e defendendo sua terra contra a pólvora do exército yankee. Talvez Avatar seja um pedido de desculpa dos americanos ao povo indígena...

Ainda que não propositalmente, as referências de Avatar enriquecem a história, tornando o filme um mundo de novas descobertas e experiências. E provavelmente a maior delas seja visual. Avatar foi feito para os olhos. Desse modo, mesmo que sua TV tenha 50'', seria um crime assisti-lo em casa. Até mesmo aquele cineminha do shopping já não serve. Avatar requer óculos especiais e uma mega sala de cinema com 3-D estereoscópico.

Avatar Avatar

Infelizmente esse privilégio é para poucos. Para quem não tem uma sala IMAX ou projeção em 3-D digital no quintal de casa, só resta o 2-D em 35mm. Foi o meu caso. Mas nem por isso perdi o deslumbramento visual. O brilho e movimento da floresta fosforecente são incomparáveis. Fotorealismo ao extremo. O lugar parece um aquário de corais a céu aberto. Fora que na maior parte do filme senti um frio na espinha com as vertiginosas tomadas aéreas.

Na história, Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro naval paraplégico, recrutado para fazer parte do Projeto Avatar, liderado pela Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver). A tecnologia empregada consiste em projetar sua consciência no corpo clonado de um Na’vi, como são chamados habitantes indígenas da lua Pandora. O objetivo dessa experiência é permitir que o militar se infiltre na região e prepare o terreno para a exploração dos recursos naturais. O problema é que o sujeito apaixona-se pela floresta, pelo povo e pela guerreira Neytiri (Zoë Saldana), transformando a história numa grande jornada de descoberta, amor e redenção.

Avatar Avatar

Avatar demorou 15 anos para encontrar a maturidade. Um trabalho longo, paciente e minuciosamente detalhado. Pode não bater recordes, pode não ganhar prêmios, pode não dá em nada, mas Avatar já significou um pequeno passo em busca da cura de um dos maiores males do homem: a ganância. Já que nossos líderes não conseguiram acordar um caminho sustentável para o desenvolvimento, quem sabe o povo encontre na filosofia indígena de Avatar, o pouco que ainda resta da velha Caixa de Pandora. Nota 5/5

Confira o trailer:

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 às 00:14

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2012: divertida aventura apocalíptica sobre a preservação de nossa espécie

2012O mundo está de olho em Copenhague. Entramos na reta final da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Os 119 chefes de estado tentam encontrar a fórmula que combine: preservação do meio-ambiente e crescimento da economia. Em jogo: o futuro da humanidade. Infelizmente as negociações estão caminhando pra mais um fracasso. Um dos impasses é a meta sugerida pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. De acordo com o IPCC, os países precisam reduzir entre 25% e 40% as emissões dos gases causadores do efeito estufa até 2020.

Mas talvez não dê tempo, pois de acordo com o calendário maia, o mundo acabará em 21 de dezembro de 2012. Para comprovar essa teoria, os especialistas recorrem ao alinhamento planetário em que a Terra ficará no centro da Via Láctea justamente nesse dia. O que vem depois? O filme 2012 (2012, 2009) explica direitinho. A história mistura a previsão maia com as principais teorias catastróficas conhecidas, incluindo a reversão do campo magnético da Terra, a mudança no eixo de rotação do planeta e uma devastadora tempestade solar.

2012 2012

2012 é dirigido por Roland Emmerich, responsável por outros sucessos como "Independence Day" (1996) e "O Dia Depois de Amanhã" (2004). Gosto de filmes do gênero "catástrofe". Acho que explorar o instinto de sobrevivência é a melhor maneira de nos mostrar em essência. Ainda mais se o que está em jogo é a preservação da espécie e não apenas de um ser. É o tipo de coisa que sempre vai causar polêmica. Afinal, quem você colocaria na sua "Arca de Noé"?

Não há uma única resposta, mas gostei da forma pragmática defendida na aventura apocalíptica. O filme dividiu os seres humanos em três grupos: políticos, inteligentes e ricos. O primeiro grupo se encarregaria de exercer a liderança no mundo pós-destruição. No grupo dos inteligentes estariam os cientistas, geneticistas e outras profissões que poderiam contribuir para desenvolvimento social. Para completar temos o grupo dos ricos, que financiaria todo o projeto. E animais? Você os levaria em detrimento a outros humanos?

2012 2012

O filme não explora esses temos, apenas passa por eles. Numa das cenas mais legais o pesquisador Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor) critica o pragmático Carl Anheuser (Oliver Platt), chefe de gabinete do governo americano, por deixar os trabalhadores chineses fora da "arca" que ajudaram a construir. Ele recebe como resposta: "Está com pena? Entrega sua vaga pra um deles." O pesquisador, claro, baixa a cabeça e se entrega à própria hipocrisia.

Por tudo isso, achei 2012 um filme sociologicamente rico. Mas a verdade é que no final das contas, o que realmente chama atenção é o ritmo alucinante da história. As cenas de destruição são vertiginosas. Um espetáculo de visto de cima. Mas basta um tsunami cobrir uma família diante de nossos olhos para o mundo vir abaixo. Pena que o final tenha escorregado no melodrama. Ainda assim, 2012 é um dos filmes mais divertidos do ano. Nota 4/5

Confira o trailer legendado:

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009 às 20:00

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Up - Altas Aventuras: a emocionante odisséia romântica de um velho rabugento

Up - Altas AventurasVocê sabe quando um jovem se torna velho? Alguns dizem idade, cabelo branco, dor nas costas. Eu não sei ao certo, mas se pudesse apontar um único fator diria filosofia de vida. Ela é quem responde por nosso destino, sonhos, projetos, certezas, manias e tolices. Essa bússola semiótica lentamente transforma o espírito aventureiro das crianças numa velha cartilha dogmática. E assim nascem os velhos.

Na animação Up - Altas Aventuras (Up, 2009), o protagonista Carl Fredricksen (voz de Ed Asner) – um vendedor de balões de 78 anos – nos ajuda a compreender esse processo de forma lúdica e emocionante. Desde pequeno ele tinha um sonho: conhecer as florestas da América do Sul. Mas a vida lhe apresentou outros planos. Casou. Não pôde ter filhos. Vivia de forma simples, porém feliz

Up - Altas Aventuras Up - Altas Aventuras

Tudo muda quando sua esposa amanhece morta. Viúvo, cansado, rabugento e agora, sozinho. Aos poucos percebe que o mundo ao seu redor já não é mais o mesmo. As coisas parecem mais frias, barulhentas, impessoais. Sua própria casa se torna um empecilho para a vizinhança, que progride, cria shoppings, estacionamentos, rodovias. Ele já não tem mais um lar. Sobrou o asilo. Que outro lugar aceitaria um velho?

Mas aí é que entra a beleza de Up - Altas Aventuras. A criança – que parecia morta – desperta na alma do aposentado. Ele então amarra milhares de balões multicoloridos ao redor de sua casa, rompe as estruturas da construção e levanta vôo. O homem parte para a odisséia de sua vida. Resgata o velho sonho abandonado. Renasce.

Up - Altas Aventuras Up - Altas Aventuras

Apesar da aparente complexidade em navegar uma casa pelos céus da América em busca de florestas tropicais, o homem estava se saindo bem. Até que surge na varanda o menino Russell (Jordan Nagai). Aprendiz de escoteiro, 8 anos, excessivamente otimista e uma matraca. Ele é o pentelho que faltava nessa história. Juntos, vô e neto (ops!) conseguem chegar na grande floresta tropical e acabam descobrindo segredos guardados por décadas.

Up - Altas Aventuras é inteligente, romântico e divertido. O filme ultrapassa as barreiras da animação, desafia sua própria indústria ao matar desejos de consumo e construir valores morais. É uma história que toca a alma, faz chorar sem esforço, sem estardalhaço. Para isso, basta um diário, algumas fotos e lembranças da maior aventura que um homem pode ter: a família. Nota 5/5

Confira o trailer legendado:

Outra resenha sobre o assunto:
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